quinta-feira, 22 de maio de 2008

Bolsa Ditadura: Uma tese, uma antítese e duas sínteses...


UMA TESE - Coluna Elio Gaspari – Folha de São Paulo – 11/05/2008: Em 1972, o professor Paulo Brossard foi posto para fora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul pelo governo militar e proibido de entrar nas suas dependências. Ele lecionava direito constitucional e, quando precisava de um livro, pedia à filha Magda que o buscasse na biblioteca. Brossard puniu a ditadura elegendo-se senador. Foi ministro da Justiça e deixou Brasília como ministro do Supremo Tribunal. Há milhares de pessoas que, muito justamente, foram buscar indenização pelo que pensaram. Brossard achou que, no seu caso, esse pedido não faria seu estilo.


UMA ANTÍTESE - O Estado de São Paulo – 04/04/2008 - Os jornalistas Ziraldo e Jaguar foram contemplados ontem com mais de R$ 1 milhão em indenizações pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, pelos alegados prejuízos que sofreram com a perseguição política durante o regime militar. O julgamento dos processos foi realizado na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio, juntamente com os de outros 18 jornalistas. "Aos que estão criticando, falando em bolsa-ditadura, estou me lixando. Esses críticos não tiveram a coragem de botar o dedo na ferida, enquanto eu não deixei de fazer minhas charges. Enquanto nós criticávamos o governo militar, eles tomavam cafezinho com Golbery", afirmou Ziraldo.

Ziraldo, escritor e chargista de sucesso, e o cartunista Jaguar, trabalhavam no Pasquim quando o semanário sofreu forte repressão por ser considerado ofensivo pela ditadura. Os dois receberão pensão mensal de cerca de R$ 4 mil. Jaguar e Ziraldo receberão ainda R$ 1.000.253,24. O montante, que será pago em parcelas, é retroativo a 1990, antes da criação da Comissão de Anistia, em 2001, porque os jornalistas já haviam feito o pedido, por meio da ABI, ao Ministério do Trabalho em 1990.


UMA SÍNTESE - Blog do Marcelo Tas – 07/04/2008: Enquanto eles combatiam destemidos nas trincheiras desenhando cartuns, escrevendo artigos com duplo sentido, entrevistando a si mesmos e tomando porres em Ipanema.

Sim, cada um a seu modo, teve uma postura crítica diante da cruel realidade brasileira na época, que aliás não mudou muito de lá para cá. Mas não fizeram isso por idealismo? Não fizeram isso porque era "a única coisa a ser feita naquela época"? Não fizeram isso porque eram legaizinhos e "prafrentex" como nos disseram através do Pasquim? Não é exatamente isso que se espera de pessoas honradas? Não é exatamente essa a postura de milhares, senão milhões de brasileiros que resistem a duras penas, à tremenda injustiça escancarada nas ruas pelos quatro cantos do país até hoje?

O que esses senhores recomendariam a cada brasileiro que hoje se sinta injustiçado por algo que aconteceu há 30 anos? Que contrate um bom advogado para tungar um milhãozinho dos cofres públicos? Quem diria que esses senhores, no final da vida, figuras que sempre posaram de boa gente, amantes do humanismo, combatentes das desigualdades, defensores dos bons costumes... fossem dar um aplique desse na gente? Depois de todo o blablablá de décadas, no ocaso de suas carreiras, coroarem o currículum vitae com a invenção da "Bolsa Ditadura"?! Que vergonha!

Tivemos que esperar esses anos todos para perceber, aos 45 do segundo tempo, que eles, esses velhinhos velhacos, são verdadeiramente, a geração perdida. Que este milhão arda no traseiro deles e o travesseiro não os deixe dormir em paz.

OUTRA SÍNTESE - O jornalista e humorista Millôr Fernandes concluiu dizendo o que acha das indenizações: “Eu pensava que eles estavam defendendo uma ideologia, mas estavam fazendo um investimento.”

É...

sábado, 17 de maio de 2008

Artur da Távola.

Que a vida nos ensine, a todos, a nunca dizer as verdades na hora da raiva. Que desta aproveitemos apenas a forma direta e lúcida pela qual as verdades se nos revelam por seu intermédio, mas para dizê-las depois. Que a vida ensine que tão ou mais difícil do que ter razão, é saber tê-la.

Que aquele garoto que não come, coma.

Que aquele que mata, não mate.

Que a moça esforçada se forme. Que o jovem jovie.

Que o velho velhe. Que a moça moce. Que a luz luza. Que a paz paze.

Que o som soe. Que a mãe manhe. Que o pai paie. Que o sol sole. Que o filho filhe. Que a árvore arvore.

Que o ninho aninhe. Que o mar mare. Que a cor core.Que o abraço abrace. Que o perdão perdoe.

Que tudo vire verbo e verbe. Verde. Como a esperança. Pois do jeito que o mundo vai, dá vontade de apagar e começar tudo de novo.

A vida é substantiva, nós é que somos adjetivos.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Daniel


- "What can I do for you"...???

Foi quando ela desviou os olhos das ondas que quebravam sob o pier, que ela observava da janela do restaurante.

A tarde caía. Frio. Uma pequena cidade pesqueira, já próspera outrora, à beira do Pacífico, hoje conservando apenas o charme dos locais onde as coisas aconteceram um dia, mas por qualquer razão, acabaram, deixando apenas o cenário de pano de fundo. Um lugar de romance, como aqueles que vemos nos melhores filmes do gênero. Um lugar perfeito para se encontrar alguém. Ou ser abandonado por ele.

O "What can I do for you", que a fez voltar à mesa 39, encostada na janela, veio também acompanhado de um sorriso. Um sorriso aberto, de traços marcantes e ângulos expressivos. Um sorriso que, há quem diga ser perigoso demais, por envolvente, em determinados momentos da vida.

E ela estava quase gritando por dentro. Seu peito parecia querer se despedaçar, acabando com aquele pouco que ainda se encaixava. Tinha decidido largar tudo, deixar as coisas como estavam e viajar. Sozinha. Achava que o tempo estava escoando muito depressa por entre seus dedos e acreditou nas palavras do Sal Paradise, no livro do Kerouac, que, "talvez em algum ponto da estrada, haveria visões... E a pérola lhe seria ofertada..." Comprou seu bilhete aéreo e foi. Sem família, amigos, parceiros. Sozinha. Era como estava, ou pelo menos sentia-se há tempos. Apenas colocou na mala e jogou a sua solidão para alguns milhares de kilômetros mais longe.

Daniel, como ela pode verificar no crachá, era o nome do jovem garçom que sorria. Com os olhos ainda meio fora de foco, seu corpo reagiu imediatamente àquele sorriso. Ele notou... Era um daqueles momentos em que nada há para ser dito, seja em que língua for. Sim - ela pensou, à beira da irracionalidade - ele poderia fazer muito por ela. Poderia desejá-la e fazê-la desejá-lo de maneira idêntica.

Naquela hora, embora a cabeça fervilhasse de sensações e sentimentos ambíguos e desconexos, ela conseguiu apenas gaguejar o pedido de uma pasta e uma taça de um vinho tinto da região. Seu inglês, que nunca havia sido dos melhores, tornara-se primário, quase ineficiente, como o de uma criança.

- Ok... - disse ele. E se retirou.

O restaurante parecia ser muito concorrido. Talvez pela comida que servia. Talvez pela vista do pier que oferecia, e isso ela não encontraria em menu nenhum. Os lampiões, que ela acreditava terem iluminado os antigos pescadores de sardinha, acendiam suas lâmpadas amareladas. Conseguiu retornar os 100 anos que a separavam desta época e vislumbrar os barcos pesqueiros atracando no pier, para descarregar a pesca do dia. Os velhos pescadores e seus cachimbos, agasalhados, ávidos por um leito aquecido. Os antigos galpões das fábricas, trabalhando à toda força para enlatar as toneladas de sardinha, que seriam mandadas por todo o país. Mas essa viagem no tempo tornava-se cada vez mais desconcentrada. Pois agora seus pensamentos insistiam em voltar ao presente e em pensar em Daniel. Ao mesmo tempo que olhava para a praia, revivendo o final do século passado, acompanhava dentro do restaurante todas as indas e vindas daquele sorriso, enquanto bebia alguns goles do seu vinho.

Quando seu prato chegou, ela soube. Soube que seria inevitável. Percebeu que algumas vezes, chegamos perto demais para recuar. O mesmo aconteceu com ele. Servia as outras pessoas, como se só houvesse ela sentada na mesa da janela. Os espelhos do restaurante eram insuficientes para rebater os olhares, os gestos e os sorrisos.

É claro que ela o esperou. Nem se deu ao trabalho de ir pensar no seu quarto de hotel um plano, uma desculpa, ensaiar uma frase feita, para voltar ao restaurante no dia seguinte, pois ele quase havia implorado para que ela ficasse.
Ela teria mais uma semana antes de voltar para casa, a ser distribuída em outras localidades. No entanto, percebera de forma clandestina que alterar os planos e as regras na metade do jogo, era uma das coisas mais excitantes da vida.

Os dias que se passaram foram repletos de alegria e luz. Sua felicidade beirava níveis astronômicos. Ela jamais havia sido tão intensamente feliz. O que houve nestes dias, ela pensava existir apenas nas prateleiras da sua biblioteca. Ela esperava o turno dele acabar, sentada à mesma mesa. Antecipou o check-out no hotel. Esqueceu de mandar os postais prometidos para as amigas que a rotularam de inconseqüente. Ele a ensinou a mergulhar naquelas águas geladas do Pacífico, na praia do pier. Ela tentou ensiná-lo a desenhar e pintar aquela paisagem, sem no entanto obter resultados muito empolgantes. Ele a deixou dirigir seu carro pelas estradas que pareciam querer acabar no oceano. Ela lhe servia o vinho quando estavam a sós, na casa dele. Tateavam um ao outro na escuridão. Podiam se identificar pelo cheiro, com fazem os grandes predadores com a sua presa. Eram velhos conhecidos, que nunca haviam se encontrado antes. Não perdiam um final de tarde no pier. A todos os bares, ele a levou.

O tempo se acabava. Mentiria se afirmasse não ter cogitado, mesmo que lá no fundo dos seus desejos, por alguns fragmentados segundos, esquecer sua vida até então, e iniciar uma outra, partindo deste ponto que se encontrava. Mas teve medo. Teria que voltar para casa.

Despediu-se dele, naquela última sexta-feira à noite, sem ilusões. Sabia que talvez levasse algum tempo para tornar a vê-lo. Teria que ir ainda até outra cidade, onde já deveria estar há muito tempo, para pegar o vôo para casa. Na segunda feira já estaria trabalhando, assim como ele, que teria o final de semana de folga.

Ela partiu com seu carro da praça do pier, novamente encarnando os velhos marujos que partiam dali com seus barcos. Sua jornada seria, no entanto, o caminho que nos leva novamente à vida real, depois do tempo em que fomos mais felizes.
Segunda de manhã. Sua vida ainda era a mesma. As mesmas pessoas, os mesmos caminhos, os mesmos lugares. Eram os mesmos, mas eram diferentes. Porque ela estava, e sabia que dali para frente, seria sempre diferente. A pérola, finalmente lhe fora ofertada, mais que oportunamente, naquele cenário marinho, que ela não voltou sem antes desenhá-lo com seu grafite.

Aprontou-se para voltar ao trabalho. Retirou da bagagem o sorriso que ele havia lhe dado. Colocou-o no rosto, tanto para parecer agradável aos que a rodeariam até as próximas férias, mas principalmente para tentar ainda estar de alguma forma com ele, com a expressão da beleza estampada, que se sobrepunha a sua melancolia. Assim, ele não estaria mais tão longe, à beira do Pacífico.

A segunda feira de trabalho para ele, começaria somente à noite. Turno das 17h00m. Sentiu a falta dela quando olhou para aquela mesa vazia encostada na janela do restaurante. Ainda tentou imaginar o que ela estaria fazendo naquela hora, calculando a diferença do fuso-horário. O sol vermelho não mais iluminava a silhueta e o perfil dela. Ele apenas se punha sob a janela, prenunciando uma noite fria. As gaivotas batiam asas sobre o pier e novos rostos iam e vinham. Luzes eram acesas na baía. Alguns albatrozes nem se importavam com a água gelada. Daniel coloca seu avental, arruma os cabelos negros no bar espelhado, e solicitado, segue para a mesa 39. A mesma vista da baía, a mesma praia, o mesmo pier com suas gaivotas. Ele se detém por um segundo. Duas garotas querem jantar. Ele abre um sorriso e solta: - "What can I do for you"...???

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Les yeux sans visage...



Em algum ponto da galáxia, onde vivem anjos, surfistas prateados, asgardianos e jedis, eles (Audrey e Modigliani) devem ter se encontrado e ele fez o portrait dela... Eu, daqui, só posso admirar a beleza de ambos e me pegar, nesses dias gelados de quase inverno curitibano, cantarolando "two drifters off to see the world, there's such a lot of world to see..."