Quatro Trilhas Sonoras
Mais do que nunca, naqueles dias ele amou Roma e
aquelas ruas loucamente entrelaçadas, com o trânsito caótico fluindo para todos
os lados. O sol já havia desaparecido no horizonte daqueles prédios que se
confundem com os monumentos da glória de outras épocas. Era aquela hora em que
as coisas adquirem uma tonalidade azulada, cinza outros diriam, quando não se
tem mais certeza se ainda é dia ou já é de noite. Só que naquela esquina lá
estava Ela, com as mãos dentro do casaco, tentando barrar o frio que só aumentava.
Não havia a menor possibilidade, pensariam alguns, de ocorrer uma cena como a
que Ela havia iniciado alguns dias atrás. Mas isso era o que Ela mais adorava:
Abater a expectativa dos outros em pleno céu de brigadeiro. Nada muito
aviltante, claro. Apenas na medida certa, naquela zona cinzenta que separa o
que é espontâneo e natural, daquilo que é rude e de mau gosto. Naquela hora o
barulho dos carros e motonetas aumentava. Romanos exerciam seu doce esporte de
xingar os demais motoristas e por que não, os pedestres, quase na maioria
turistas. Ele quis beija-la logo na chegada, como as duas avenidas se
entrelaçavam. Não um simples beijo no rosto não... Beijo... De verdade... Sabia
que não há nada que aproxime mais duas pessoas do que um beijo... Pode ser
ensaiado, roubado, pedido, molhado ou implorado. Pouco importa, só que sem um
bom beijo, um casal não se acerta, e a causa está perdida. Mesmo sem o beijo de
chegada, eis que prematuro demais, eles se conversaram, se descobriram muito um
no outro. Perderam a noção do tempo. Muito mais encantamento do que surpresa,
mas o trânsito ainda não havia diminuído, só que isso já não mais importava,
porque a respiração dela já havia voltado ao normal. Justamente Ela, que
esperava algo mais. Tá certo que há muito, não havia ninguém que pudesse
acelerar seus batimentos. Tá certo também que Ela SEMPRE espera algo mais. Deve
ser por esse motivo que acaba sempre iniciando uma situação como essa: Ela
pula, Ela avança, Ela respira, Ela diz palavrões, Ela provoca. E depois Ela
senta, sossega para assistir o circo pegar fogo, com aquele sorriso de
Gioconda, que ninguém sabe dizer se é de verdade. Ou de mentira... Ou ambos...
Que, na verdade, para ele, tanto faz...
Depois do jantar, ele puxa o seu multiplatinado
cartão de crédito, nem dando chance para o famoso “vamos dividir...???”... Não
era de se estranhar... Após alguns dias de tempo fechado entre eles, aquela
gentileza era um mínimo bastante pertinente. Ela ficou feliz... Mas o problema
era que sempre que Ela bebia, ficava feliz... Lembrou que estava de carro (foi
até bem difícil de estacionar) e pediu um café para rebater o que havia
bebido... Já era tarde e teria trabalho no dia seguinte... Bem que ele tentou
prolongar a noite naqueles conhecidos lugares “mais tranqüilos”, mas não
colou... Naquela noite, pelo menos, não... Na saída do restaurante, chuva mansa
e vento frio... Pensou até em dar uma chance ao rapaz, mas lembrou que seu
horóscopo no jornal, pela manhã, aconselhava ir com calma nos relacionamentos
afetivos... Tudo bem, aquilo nem era um relacionamento de verdade...
Afetivo...???? Talvez... Nem acreditava em horóscopo mesmo, quanto mais os de
jornal. Foi para casa sozinha, cantarolando "It's still the same old
story, a fight for love and glory, a case of do or die…", e tentando
descobrir porque Rick e Ilsa não ficaram juntos na neblina do aeroporto de
Casablanca... A tal felicidade lhe fugiu por uns instantes, quando lembrou que Rick e Ilsa will always have Paris, e
com isso, de fato, não dava para competir...
Ela já tinha passado por essa situação algumas
várias vezes e sabia que sempre terminava em solidão acompanhada... Não haveria
geléia light no mundo que a fizesse, entretanto, deixar de olhar para o relógio
digital... Sorriu discretamente, tentando não ser grosseira, quando o
"gato", cumpridor fiel do protocolo, se despediu com o quase inédito
“te ligo”... Até aí tudo bem - Ela pegou a primeira blusa que estava à mão para
acompanhá-lo à porta.... Beijos burocráticos de despedida, cada um mais
preocupado com seus compromissos do que propriamente com o outro. Ela volta
para o quarto, dá uma geral no que ficou pelo chão e decide deixar com está...
Vai ter tempo suficiente para arrumar quando voltar para casa à noite. Sabia
que chegaria atrasada ao trabalho, então relaxou... Preparou um banho, não sem
antes colocar um CD para tocar... Engraçado... Num respiro de My Funny
Valentine em seu trompete, Chet Baker disse muito mais do que o
"gato" que saía pela porta da frente, em uma noite inteira... É...
Não dá pra ganhar sempre... “E também que se dane o trabalho” - deu de ombros,
voltando a dialogar com o velho Chet, até porque gatos de verdade, usam só a
porta dos fundos...
Eu fico olhando pra ela, e fico querendo saber se ela anda na corda bamba, se acorda à noite com sede, se queima a língua com chá quente, se deixa o telefone tocar, se faz pedido quando vê a primeira estrela, se chora no final do filme, se come pizza com as mãos, se acredita em anjos, se gosta dos impressionistas, se demora no banho, se para na frente de uma vitrine sem querer comprar nada, só olhando, se tem uma música que toca e ela para tudo que tá fazendo, se já dançou sozinha na cozinha às duas da manhã, se sabe que o cheiro de chuva numa tarde de verão é uma das poucas coisas que ainda consertam alguma coisa.
Ela tem olhos incertos, deve esconder segredos sob a jaqueta de couro, deve ir à praia de noite, deve dançar no ritmo certo, deve ter vontade de furar o sinal vermelho, deve ter preguiça de arrumar a cama, deve dormir tarde, deve ter medo de barata, deve fuçar os canais no controle remoto, deve gostar de Ray Charles, deve ter subido a Montmartre num final de tarde e ficado parada ouvindo alguém cantar La Bohème numa janela aberta, sem entender a letra e entendendo tudo, deve ter parado numa cidade pequena que não estava no roteiro e ficado mais tempo do que planejava, deve andar descalça em casa mesmo no frio, deve ter uma planta que quase morreu e ela salvou na última hora, deve achar que Van Gogh não era louco, só via demais, deve saber que solidão acompanhada é a mais difícil de explicar e a mais honesta de sentir.
Eu fico olhando pra ela, e fico querendo saber se ela pinta os olhos pra um encontro casual ou só em ocasiões importantes, se já leu Kerouac, se vai a pré-estreias à meia-noite, se gosta de abrir presentes de natal, se fica na cama quando está deprimida, se acha que Paris cheira diferente quando chove, se já tomou porre de tequila, se teve ressaca, se toma sorvete no inverno, se tem medo de avião, se torceu pra que Clark Gable não tivesse ido embora com o vento, se sentava na primeira fila no colégio, se já ficou numa galeria olhando pra um quadro de Hopper e sentiu aquela solidão gostosa, se sabe de cor algum poema que ela nunca declamou pra ninguém, se acha que Picasso entendia de mulheres ou só fingia que entendia, se já dormiu num hostel em cidade estranha e acordou feliz sem saber bem por quê, se já ouviu Bach de olhos fechados e entendeu que existe algo maior do que a gente, se já leu Stendhal e ficou com aquela sensação estranha de que a beleza pode ser perigosa.
Eu fico ouvindo ela falar e fico imaginando que ela deve se aborrecer com a toalha molhada sobre a cama, deve achar Juliette mais bonita que Michelle, deve chegar atrasada no cinema, deve ler poesia e decora os versos que a pegaram de surpresa, deve ter um livro na cabeceira com o marcador na mesma página faz meses, deve ter chorado lendo Clarice numa tarde de chuva sem contar pra ninguém, deve ter assistido Asas do Desejo e saído do cinema querendo que alguém a tocasse só pra confirmar que ela ainda era de carne, deve ter ficado parada num canal de Veneza num fim de tarde olhando a luz mudar devagar sobre a água e pensado que não precisava de mais nada, deve preferir mercado a shopping, deve achar que café bom não precisa de açúcar, deve achar que o final do verão dói de um jeito que não tem nome certo, deve ter passado uma manhã inteira ouvindo os Beatles num toca-discos e tido a certeza quieta de quem acabou de receber algo que não pediu e não merecia e ganhou assim mesmo, deve gostar de assistir ao pôr do sol sem tirar foto, só ficar ali, deixando acabar.
Eu fico olhando pra ela, e fico querendo saber se ela perde todas as moedas dentro da bolsa, se torcia pro Papa-Léguas ou pro Coiote, se esquece onde colocou a chave do carro, se quis que Rick e Ilsa tivessem ficado juntos na neblina do aeroporto em Casablanca, se canta no chuveiro, se dança de rosto colado, se já ficou perdida numa cidade estrangeira, se fica horas folheando revistas na banca da esquina e sai sem comprar nada, se acha que James Dean morreu na hora certa ou se pergunta como ele teria envelhecido, se já tomou vinho barato num apartamento sem móveis e achou que era o melhor da vida, se acende vela quando falta luz ou fica no escuro mesmo porque achou bonito assim, se já comprou uma passagem sem saber direito o que ia encontrar do outro lado, se acha que domingo de manhã com pão fresco é um milagre doméstico, se já ouviu Let It Be e deixou mesmo, se sabe o que é olhar nos olhos de alguém e não conseguir decidir se o que sente é coragem ou medo.
Queria saber se ela se importava de me pagar uma cerveja.




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