terça-feira, 25 de agosto de 2009

A Taste of Honey...

A cidade era bem simpática, tranquila e aconchegante. Era feriado. Não me lembro muito bem em que época do ano estávamos. Eu já estava viajando há algum tempo sozinho, de maneira que o tempo do calendário não tinha muita importância. Apenas me lembro que estava frio, mais frio que no resto do país, devido a altitude em que ficava a cidade.

Eram duas horas da tarde quando cheguei em Flagstaff, na estação de trem, vindo de Phoenix, com o intuito principal de no dia seguinte, se eu conseguisse fazer uma reserva em algum ônibus, ir conhecer o imponente Grand Canyon. Estava com sorte, e logo tinha em minhas mãos um passe de ida e volta no ônibus que sairia às 7h30m da manhã do dia seguinte.

 Arranjado o principal, segui pela mesma rua da estação, que mais tarde percebi ser um trecho da Route 66 que cortava a cidade, com a finalidade de achar um quarto para poder descansar um pouco, pois minha mochila começava a ficar cada vez mais pesada. Um motel, à beira da 66 resolveu o problema. Era a própria encarnação do ideal Beat - uma mochila com algumas roupas, não muitos dólares no bolso, alguns livros comprados pelo caminho e principalmente, um quarto de motel barato, no térreo, com uma janela sem trancas debruçada sobre a imortal rodovia. Olhando por essa janela, o movimento de carros, motos e caminhões, vi passar o espírito de todos os viajantes, principalmente os solitários, que é ir. Ir, nas palavras do velho Jack Kerouac, ir, não importa para onde, mas ir, estar sempre em movimento.

Mesmo a profundidade desta divagações, não foram suficientes para abafar os ruídos do meu estômago, lembrando-me que, já estávamos com a tarde bem avançada, e eu ainda não havia comido nada durante o dia todo. Deixei a mochila no quarto e saí, para tentar uma maior intimidade com Flagstaff. A cidade resumia-se na avenida principal, ou seja, a Route 66, onde localizavam-se, lojas de souvenirs, cafés, lanchonetes e bares, a estação ferroviária, enfim, parece que nada havia além de onde eu estava.

Com isso, o dia já estava chegando ao seu final. Entrei, com uma certa pressa, em uma lanchonete da cadeia Jack in the Box, para a primeira refeição do dia, tirando a latinha de Coca, tomada na viagem. Confesso que me tornei um especialista em todas esta cadeias de fast-food americanas. Mas, neste Jack in the Box, era minha primeira vez. No próprio balcão pedi um "Big-não-sei-o-que", um refrigerante e como a fome não seria saciada só com este "Big", pedi um "taco", comida mexicana que quase havia me desidratado num bar do Texas. Só que, no momento em que complementei meu pedido com um "taco", a atendente virou-se para mim e esboçou um sorriso, como que achando engraçado meu sotaque ao pronunciar "taco" em inglês. Tive que apontar para a figura do bendito "taco" no painel. Sorriso perfeito, dentes perfeitos, grandes olhos azuis e cabelos castanhos claros, que pude ver pelas mechas que caiam de dentro do boné sobre a nuca. Peguei o meu pedido e escolhi uma mesa.

A lanchonete estava razoavelmente cheia. Ao meu lado havia um casal de senhores com uma aparência bem simpática e mais afastado, estavam duas moças, que também chamavam a atenção pela beleza. Pensei ao mesmo tempo que engolia o sanduíche: "Flagstaff tem as mulheres mais bonitas dos Estados Unidos...".

Quando dei por mim, a atendente do sorriso, estava de pé, conversando com o casal da mesa ao lado. O senhor disse que se chamava John, mas seu apelido era Jack, igual ao nome da lanchonete. Com o mesmo sorriso, a atendente disse que seu nome era muito estranho, e que pessoalmente, não gostava dele. Chamava-se Honey. E, quando disse que seu nome não combinava com ela, fiz um sinal de negativo com a cabeça para mim mesmo, achando que não poderia haver um nome mais acertado. Ela notou meu movimento e completou: "Meu pai sempre diz que nunca deveríamos ter te chamado de Honey, mas sim de algo como azedo ou amargo...". E sorriu. Novamente.

Fiquei por muito tempo ainda sentado lá, fazendo minhas anotações de gastos e planejamentos futuros da viagem. Quando as anotações acabaram, ainda fingi que estava escrevendo algo muito importante. Saí da lanchonete, e me despedi com um leve aceno com a cabeça.

Já no meu quarto, bem alimentado para os padrões norte-americanos, decidi ir até uma praça que havia visto à tarde e que segundo haviam me informado, era lá que estavam a maior concentração de bares e cafés.

Eram 22h00m, quando entrei no bar mais cheio, para não dizer o único aberto naquele feriado, e sentei-me no balcão. Era um local rústico, onde fabricavam uma cerveja artesanal, vermelha, servida em jarras, e grandes copos de quase 1 litro. Pedi um copo. Acho que o sujeito ficou ofendido, porque pedi uma Budweiser de cara.

Havia pouca gente no bar. Alguns casais jogavam dardos. Os quase 2 litros de cerveja já estavam começando a fazer efeito. Lembrei que teria que acordar bem cedo no dia seguinte. Deixei cinco dólares sobre o balcão, e voltei para o motel com um sorriso meio bobo estampado no rosto. Uma mistura de sentir de fato o significado de estar e de ser livre, com alguns muitos mls. de cerveja artesanal.

O dia seguinte foi espetacular. A visita ao Parque Nacional do Grand Canyon é algo indescritível. Voltei no mesmo dia, às 4 da tarde, mas só com o tempo de pegar minhas coisas no motel, colocar alguns postais na caixa de coleta e seguir para a rodoviária, onde pegaria um ônibus para Las Vegas. Fiquei tentado em correr até o Jack in the Box, novamente. Não fui.

Comprei um daqueles leites achocolatados e embarquei. Flagstaff, como era o grande fundamento daquela viagem, teria que ficar para trás. Nada poderia ser como nosso cotidiano em que vivemos nos apegando a coisas e lugares. Tinha que olhar para frente. E assim foi. A cidade que tinha "as mulheres mais bonitas dos Estados Unidos", foi ficando para trás, à medida que o ônibus andava sobre a 66 para pegar a Interestadual.

Coloquei meu fone de ouvido. As estradas empoeiradas do deserto de Nevada começavam a aparecer. Reclinei o banco e me perdi observando a paisagem árida. Mas, mesmo assim, 3 dúvidas martelavam minha cabeça:

- Teria sorte no jogo em Las Vegas ?

- Como é que se pronunciava "TACO" em inglês afinal ?

- Porque eu não retribuí o sorriso ?

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