Forever Young...

Dia desses conversava com uma amiga que depois de muito tentar, conseguiu engravidar e ter o seu primeiro filho. Ela justamente me dizia o quanto havia valido a pena o sofrimento que esses tratamentos de fertilidade causam, pois agora tinha aquele serzinho indefeso e precioso junto dela. Não questiono que a sensação deva mesmo ser essa. O ponto interessante foi que agora ela disse que o casal partiria novamente nessa empreitada médica, para tentar uma menina... Que o sonho deles agora era ter um menina...
Imediatamente, na minha ignorância paterna de quem só tem um gato pra cuidar (justamente porque gatos escolhem por quem, quando e se querem ser cuidados), disparei – “mas por que vocês não adotam uma menininha agora...??? Tem tanta criança esperando por um lar...” Esse pelo menos, na minha concepção, sempre foi um raciocínio lógico e inevitável... Tenho certas dificuldades de me ver como pai, mas certamente, caso venha a ser, creio que a experiência se tornaria verdadeiramente plena, com um outro filho, só que escolhido... Acho que é a oportunidade que Deus nos dá de subverter um destino que até então parecia fadado ao sofrimento...
Deixando as divagações de lado, fui fuzilado à queima roupa com: “ah... mas eu quero uma filha minha...”
Fiquei ao mesmo tempo espantado e envergonhado... Espantando, pois sempre achei que filhos, não importam de onde venham, são sempre nossos filhos... Há quem diga que os filhos adotivos sejam de certa forma até mais amados, pois foram buscados, pinçados... Envergonhado, porque esse tipo de pensamento é próprio de quem até pode adotar uma criança e sair bem na foto. Só que em vez de ser um ato de altruísmo, pensado verdadeiramente em fazer um bem a uma criança, é um ato de egoísmo, de vaidade de quem quer ter satisfação pessoal apenas, de posição social, pois afinal uma mulher ou um casal sem filhos, devem padecer de alguma doença... E infelizmente são bem estas as pessoas que não têm pudores de gastar milhares de reais em tratamentos de fertilidade, que nem sempre dão certo, quando seria tão mais fácil canalizar estas despesas e esta energia na direção de quem não pede nada, além de um lar e principalmente de amor, que é grátis...
Tratando desse assunto com mulheres, haverá sempre aquelas que dirão que a maternidade é uma necessidade feminina e que nós, homens da caverna, jamais compreenderíamos isso. Pode ser...
Ultimamente tenho feito um paralelo deste raciocínio, acerca da adoção, com um outro pensamento, que ficou bem resumido em uma crônica da Lya Luft, na Revista Veja da morte do Michael Jackson, onde ela diz em uma frase: “Desejamos permanência, e nos empenhamos em destruir”. Não é raro pessoas que querem ter “filhos seus”, que consideram esta talvez a única forma (absurda) de se perpetuar, darem as costas a coisas simples e ordinárias como reciclar um lixo ou economizar um pouquinho de água, colaborando para um mundo muito pior, que será entregue justamente aos próprios “filhos seus”. E daí, o paradoxo se apresenta… Mas por vergonha, ou por espanto, eu paro a conversa muito antes deste ponto e volto para casa correndo para ver se o gato já foi alimentado…

1 Comments:
concordo 100% com vc, primo! eu tb não me vejo como mãe (ainda?) e resolvi que não vou etrar numas de relógio biológico ou coisa que o valha. quando (e se) bater a vontade real e eu acreditar que possa ser responsável por outra vida, adoto. mas me sinto desconfortável até com aqueles papos de gente que tem cachorro e fica falando que prefere macho ou fêmea, esta ou aquela raça...
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