sexta-feira, 25 de abril de 2008

Modi...

Ele era Modi, ela era Noix-de-Coco - ou ele a chamava Haricot Rouge naquele inverno da Grande Guerra em Paris, quando os amantes não comiam nada a não ser feijão vermelho. Modigliani havia colhido uma flor recém-desabrochada e frágil entre as jovens alunas da Academia de Arte Colarossi. Ele - 33 anos. Ela - Jeanne, 19 anos, o último grande amor. Ele pintou-a na pose lânguida, sensual e alongada das mulheres de Modigliani. Ela fugiu de casa para partilhar sua vida miserável na rue de la Grand-Chaumière.

Mesmo com a mesada de Zbo, seu marchand, o dinheiro se esvaía em absinto e vinho, haxixe e cocaína. Quando Modigliani deixou de freqüentar o La Closerie des Lilas, foi encontrado, junto com Jeanne deitado em meio a latas de sardinha espalhadas pelo chão em seu apartamento. Modigliani, tuberculoso e sem dinheiro, comia sardinhas há 8 dias. No hospital de La Charité, beija a esposa e murmura por diversas vezes - "Cara Italia".

Ele morre dia 24 de janeiro de 1920, justo quando finalmente, sua obra começava a ser reconhecida. Jeanne volta para o apartamento dos pais na Rue Amyot e se joga do quinto andar, no dia seguinte, grávida de 09 meses. Os dois estão juntos, no cemitério Père-Lachaise:

AMEDEO MODIGLIANI
PINTOR
NASCIDO EM LIVORNO EM 12 DE JULHO DE 1884
MORTO EM PARIS EM 24 DE JANEIRO DE 1920
A MORTE O LEVOU
NO MOMENTO EM QUE
ELE ATINGIA A GLÓRIA

JEANNE HÉBUTERNE
NASCIDA EM PARIS EM 06 DE ABRIL DE 1898
MORTA EM PARIS EM 25 DE JANEIRO DE 1920
DE AMEDEO MODIGLIANI
COMPANHEIRA DEVOTA
ATÉ
O EXTREMO SACRIFÍCIO

Lógico que uma história dessas, só poderia ter Paris como pano de fundo. E visitar estes lugares ainda hoje - O atelier da Rue Ravignan, em Montmartre; o apartamento da Rue de Grand-Chaumière; o La Closerie de Lilas em Montparnasse (hoje tão luxuoso, que o próprio Modi teria que vender suas telas a preços atuais para poder freqüentar), até mesmo o cemitério Père-Lachaise e muitas outras ruas, é como voltar quase um século e respirar o ar dos amantes, na cidade que os abrigou.

Não por acaso, sua morte, no início de 1920, marca o início da década conhecida como les années folles, os anos loucos, onde Paris ferveu com todos os pintores, escritores, pensadores, músicos, bêbados, anjos e demônios, exilados dos Estados Unidos sob a lei seca. Foi a época em que todos precisavam estar em Paris, numa festa que durou até o final de 1929, com a quebra da bolsa americana. Mas daí, a história já estava feita...

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